A miscigenação e a importância da identidade para uma cidade

Estava conversando no final do ano passado com o meu Babbo sobre a identidade de um lugar. O quanto a identidade é importante para que o cidadão se sinta pertencente a este local. Para se sentir em sua casa.

A conversa começou ao assistir uma conversa na TV sobre como a falta de identidade na Europa e em outros lugares estão trazendo de volta os perigosíssimos movimentos nacionalistas.

No caso do Brasil, somos ainda um país sem identidade. Somos tão miscigenados que não sabemos quem somos. Como não conseguimos criar até agora a nossa identidade porque nunca paramos para pensar sobre, viramos o país do samba, do futebol, da exploração sexual infantil, da Amazônia… Ou seja, quem nos dá a identidade é quem vem pra cá, vive sua experiência particular, pega esta vivência e a transforma em nossa identidade. São os gringos que falam quem somos. Até agora nós não conseguimos verbalizar a nossa identidade. E sabe o porquê? Porque é muito mais difícil conceituar a pluralidade do que definir um local em que todos são mais similares.

A parte boa, aliás, excelente, de ser sempre muito miscigenado, é que não temos guerra. Porque, graças ao Universo, somos vira-latas, somos um pouco de todo mundo. E há lugares com disputas de territórios que estão vivendo momentos muito, mas muito piores que os nossos. Aqui, mesmo aos trancos e barrancos, há paz. Querendo ou não, há – não entrarei em detalhe da violência porque isto é tema pra outro texto. O que quero dizer é que a gente sabe lidar com a miscigenação – e muito melhor do que a maioria! E isto é uma característica linda e pode ser uma daquelas que devem ser pertencentes a nossa identidade oficial, àquele que nós, brasileiros, criaremos.

Como sempre, o que não temos de um lado, podemos ganhar em outro. Afinal, não temos (identidade), mas sabemos fazer (se misturar). Já em outros locais, se tem (ou tinha-se identidade), mas não se sabe fazer, ou seja, se misturar. E tanto em um caso como em outro, brado e clamo, a importância do reposicionamento da marca do lugar, o tal do City Branding, como forma pacífica de reestruturação social.

O City Branding consegue entender a pluralidade, conceituá-la e oficializar uma identidade na qual TODOS sejam pertencentes. Esta é a principal função de criar uma marca para uma cidade. Uma identidade bem colocada faz com que todos se sintam pertencentes ao seu território. Quando você chega em um país que tem uma identidade igual há séculos e começa a mudá-la extraoficialmente, inicia-se um processo, sem perceber, de alteração de suas características, durante o cotidiano. Um restaurante chinês, um turbante, uma roupa não igual àquela usada normalmente… Elementos que trazem novidade ao dia-a-dia e, sem querer, quebra o reconhecimento que existia para algo totalmente novo, em construção. Desta forma, as pessoas que ali moravam começam a perder seu vínculo com a cidade. E as pessoas novas também. Mas as novas já não tinham vínculos, elas têm que criar vínculos novos. Só que tantos os novos quanto os velhos habitantes não conseguem se achar. Todos se sentem desconfortáveis onde vivem. E não há nada mais prejudicial do que o desconforto diário, o não pertencer àquilo que você chama de casa. Então, vira uma grande pasctroccia (não da boa) onde ninguém se acha mais.

Se pegarmos qualquer empresa, podemos perceber que a sua marca está sempre em evolução, porque no passar dos dias, nas conversas, nas novas contratações, nas novas relações, toda esta relação faz a marca mudar, a identidade da empresa está em constante construção. Seria muito inocente pensar que a identidade de uma cidade também não precisaria, em alguns casos, de um Extreme MakeOver e uma evolução contínua – ainda mais com a quantidade de gente chegando e indo diariamente. O que quero dizer é que as cidades PRECISAM muito mais de um reposicionamento e fortalecimento de marca do que qualquer Über-Company ou de qualquer Company.

O City Branding hoje precisa ser visto pelos governantes como essencial para criação de uma identidade em que todos estejam presentes, não só uma parte, em que todos consigam se achar neste território e não se sentirem excluídos.

O City Branding pode ser o protagonista de uma nação pacífica porque todo mundo quer se sentir pertencente a um lugar.

O fato é que There is no Place Like Home. Então, façamos de todas as nações lugares em que todos se sintam em casa. É mais do que possível e muito mais viável do que imaginam. Eu não só acredito neste movimento como tenho certeza de que a paz seria a consequência direta desta ação.


Liv Soban é Estrategista de Marca. Com participação ativa em negociações com clientes e sólido conhecimento em Comunicação interna, externa e, também, nas relações com a imprensa, atua na elaboração, construção e desenvolvimento de Marcas, bem como Planos de Marketing e Comunicação. Executa a gestão do Planejamento estratégico, inclusive no fortalecimento da relação da empresa com seus stakeholders. Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, cursou especializações relacionadas a Marketing e Comunicação em instituições como FGV, Universidade de Illinois, Universidade de Amsterdã, Bocconi, IBMEC e USP.