Entrevista: Beto Lima

beto-limaEntrevistamos Beto Lima, um profissional multi: diretor de arte, designer gráfico, professor e autor do livro Logos Cariocas da Gema. Nessa entrevista ele fala sobre sua relevância não apenas no meio acadêmico, mas também nas redes sociais. E analisa o Branding no Brasil.

InfoBranding: A publicidade brasileira é super reconhecida lá fora (com vários prêmios internacionais), mas no Branding ainda estamos “engatinhando”. Como professor e profissional, qual a maior dificuldade: a falta de profissionais qualificados ou reconhecimento da importância do Branding pelas empresas?

Beto Lima: Não é pela falta de profissionais qualificados, pois isso nós já temos bastante e cada vez mais as instituições de ensino estão investindo. Aqui no Rio, por exemplo, temos o primeiro MBA de Branding das Faculdades Integradas Rio Branco onde eu leciono, mas em São Paulo esse mesmo MBA já está na sua 10ª turma. Tem dois cursos de extensão aqui no Rio, um na PUC e o outro é o meu na FACHA, fora alguns MBAs que já estão incluindo a disciplina de Branding, como o MBA de Marketing & Inteligência Competitiva e o MBA de Gestão de Shopping Center pelo Grupo IPOG em Goiânia onde serei o professor agora em ambos, em outubro e novembro desse ano. Algumas empresas já estão aprendendo a dar valor na gestão de suas marcas, mas muitas ainda sequer têm noção da importância na gestão de sua identidade visual, quanto mais na gestão de suas marcas…talvez por ignorância…mas no sentido de falta de conhecimento…segundo o livro: Gestão Estratégica de Marcas de Kevin Keller e Marcos Machado, o branding aqui no Brasil foi “implantado” a partir do ano de 2000…ainda temos muito caminho a percorrer…mas não devemos nada ao mercado internacional com relação aos profissionais.

 

IB: Você atua fortemente na web. Qual a importância das redes sociais e blogs para o Branding? Você tem algum projeto nessa área, além dos canais que já está?

BL: Sempre foi o meu objetivo utilizar as redes sociais não somente para a divulgação do branding como também do design, mas principalmente como agregador de profissionais e professores com o intuito de trocar ideias e nos mantermos antenado com essas duas áreas…o Grupo Branding Brasil no Facebook com atualmente 2000 membros onde sou o moderador, teve inicio em 2004 no Orkut e chegou a ter 11 mil membros, e quando surgiu o Facebook, sugeri ao moderador desse grupo, Bruno Ideriha, que levássemos para o Face, ele me disse: “é todo seu”…então procurei convidar os melhores profissionais e professores, não somente daqui do Brasil, mas também do exterior, a fazer parte, pois nunca foi o meu objetivo ter quantidade e sim qualidade…temos hoje editores de revistas especializadas em branding da Espanha, dos EUA, enfim um bom grupo seleto e que agora temos vocês da InfoBranding para agregar valor para todos os membros desse grupo.

Além desse grupo, mantenho um blog Branding Online, onde hospedo livros em PDF free, vídeos e entrevistas com profissionais de branding, esse blog surgiu com o intuito de dar apoio a curso a distância de branding que eu tinha pela EADFACHA, está nos projetos da FACHA dele voltar, isso iria facilitar aquelas pessoas onde ainda não há cursos nas suas cidades e também aquelas com dificuldade de tempo, pois o aluno faz o seu tempo, cheguei a lecionar inclusive para brasileiros que não estavam morando na época aqui no Brasil.

 

IB: Você tem uma vivência no exterior e contato com profissionais de outros países. Como é o Branding internacional? Quais marcas você mais admira?

BL: Quando morei e trabalhei na Europa em 1996, mas precisamente em Portugal, ainda não se falava em branding, trabalhei lá fora como designer e diretor de arte, mas percebi que em quase todas as agências as quais visitei e trabalhei, ou tinha um brasileiro ou já tinha passado um por lá, o que não vejo muito por aqui no Brasil, acredito que seja pelo fato de sermos bastante criativos e nos adaptarmos muito facilmente em outras culturas. Na época estávamos em 3º lugar em termos de criatividade a nível mundial, só “perdendo” para a Inglaterra e EUA, e mesmo assim em quantidade de prêmios.

Não há uma fórmula mágica para o branding e isso se aplica em qualquer parte do mundo, o que vê no Google, por exemplo, como referência de ser o melhor lugar do mundo para se trabalhar não acredito que seria possível em outras empresas, cada caso é um caso, as empresas não são iguais, como a minha mãe sempre diz: “os dedos das mãos não são iguais entre si, mas juntos fazem a diferença.” Mas se a empresa realmente cumpre a promessa e ainda por cima, surpreende o seu cliente no atendimento, no seu serviço, no seu produto, é como um relacionamento entre um casal..tem tudo para dar certo e serem felizes.

Admiro marcas que respeitem o consumidor e que estes percebam que a promessa que a marca diz seja cumprida, pois esse é o objetivo principal do branding, como bem citou o Marty Neumeier, autor de diversos livros entre eles O Abismo da Marca, e que tive a oportunidade de conhecê-lo quando o mesmo esteve aqui no Brasil e depois se tornou meu amigo: “Uma marca não é o que dizemos sobre ela, mas sim o que as pessoas dizem sobre ela.”

Uma curiosidade: conheci o Marty Neumeier, através do Twitter, quando pesquisava sobre branding, ele vinha dar uma palestra na FIRJAN aqui no Rio (2009) e me convidou…nunca tínhamos nos visto…quando cheguei na palestra fui chamado de “o menino do Twitter” isso com 50 anos de idade…adorei…aproveitei e fiz uma brincadeira com ele pois durante a palestra, ele utilizava um MacBook, perguntei-o como ele fazia quando se apresentava ao seu cliente, a HP nos EUA…me lembro que ele ficou todo vermelho e brincando disse que tampava o logo da Apple nas apresentações…isso foi ótimo pois essa pergunta quebrou o gelo…aí ele me disse que nunca tinham perguntado isso à ele em nenhuma das apresentações que ele fazia pelo mundo…ele disse que eu tinha um olhar de designer bem apurado…aproveitei e lhe disse que nós temos o humor aqui no Brasil como diferencial nos nossos projetos.

 

IB: Quais marcas brasileiras trabalham melhor o Branding e por quê?

BL: Há diversos cases de bom branding aqui no Brasil, mas gosto muito do trabalho que é desenvolvido pelas Havaianas que levou um “simples chinelo de dedo” utilizado por pessoas comuns a categoria de design brasileiro super desejado no exterior e aqui também, tanto que virou “troféu/brinde/lembrança” em muitas festas de casamento aqui no Brasil. E lá fora quem as adquire, fazem questão que seja o modelo que tenha a bandeirinha do Brasil.

 

livro-logos-cariocas-da-gemaIB: Como surgiu a ideia para o livro?

BL: Surgiu percebendo os logos cariocas que me rodeavam no meu dia a dia, no trajeto da minha casa, por exemplo: em frente a minha casa tenho a Clínica Rio, no trajeto tem a Rio Tintas, que ainda não consegui…eu já tinha feito: um rebrand para o Abatedouro Carioca, uma proposta de logo para os 100 Anos para a  Praia de Ipanema, outro para os 85 Anos do Bondinho do Pão de Açúcar, o meu primeiro logo que fiz em 1985 foi para o Rio Squash Clube…e aí foi lembrar do logo da ECO 92 criada pela designer Evelyn Grumach, com quem tive o prazer de trabalhar quando ela ainda tinha um escritório de design chamado A3, do logo dos jogos Pan-Americanos do Rio em 2007, criados pelos amigos Claudia Gamboa e Ney Valle da Dupla Design e o das Olimpíadas do Rio 2016 criada pela equipe da Tátil Design, do Rock In Rio criado pelo Cid Castro em 1984….então comecei a utilizar o Google para pesquisar mais…e me deparei logo de cara com uns 60 logos que tinham o perfil que procurava para esse projeto.

Fui catalogando um por um e adicionado o site em que os encontrava para depois procurar encontrar quem eram os “pais dessas crianças”, como gosto de chamar. Até que em abril de 2011, procurei o Vitor Moreira, editor da 2AB Editora e o convenci a fazermos um projeto juntos, ele gostou tanto que criou um hotsite, para explicar o projeto, me apresentar e também para a hospedagem dos logos cariocas da gema…fora a utilização em massa de todas as redes sociais e de amigos, pois sem eles, esse projeto que durou 3 anos, iria ter um prazo infinitamente bem maior.

Mas não fiquem achando que era somente ficar esperando que hospedassem os logos no hotsite…muitos foram enviados para o meu e-mail e muitas ligações foram feitas para poder explicar o projeto (quando não enviavam em arquivo errado, fora explicar o que era JPG e DPI) e também descobrir quem os tinham criados e também descobrir os créditos que solicitava…foram 3  anos mas que valeram a pena.

Já tenho mais 40 logos até o momento para serem inseridos para a próxima edição e mais 90 para serem convidados, pois se trata de uma obra viva…fora os novos logos do governo e da prefeitura que certamente irão se modificar em cada novo mandato.

 

IB: O seu livro fala sobre os logos cariocas. Você acha que as marcas cariocas tem um DNA próprio, diferente de outras partes do Brasil? Quais são as marcas que melhor representam o estilo carioca?

BL: O critério estabelecido foi: logos que tivessem sidos criados utilizando no seu contexto, símbolos que representassem a cidade do Rio de Janeiro como, por exemplo: o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, o calçadão da Praia de Copacabana, o estádio do Maracanã, a Quinta da Boa Vista, a Baía de Guanabara , o Jardim Botânico ou outro símbolo que remeta a associação e que só exista no Rio de Janeiro.

Deveriam ter um desses símbolos e/ou a palavra “Carioca” ou “Rio”. Esses logos poderiam ter sidos desenvolvidos para qualquer tipo de finalidade: identidade visual de empresa, de produto, eventos, projetos acadêmicos e etc.

Todos os 482 logos publicados nessa primeira edição corresponderam a curadoria feita por mim e pela editora, desde um simples logo como do Violão Carioca feito a mão pela sua proprietária de 82 anos como o das Olimpíadas do Rio2016 criadas pela Tátil Design tiveram o mesmo tratamento no livro, ou seja, não houve o menor critério de tratamento especial, todos foram publicados de forma igual sem nenhum destaque, aliás esse foi um dos quesitos que mais foquei com a editora, pois todos representam o Rio, cada um com a sua característica e objetivo.

 

IB: Há algum projeto para fazer outros livros falando sobre regionalismo de outros Estados ou Cidades Brasileiras & Branding?

BL: Quando comecei a desenvolver o livro Logos Cariocas da Gema, já tinha em mente fazer de outros estados como: Logos de Sampa, Logos de Minas, Logos Gaúchos e etc, mas ainda não tenho informações suficientes que nesses e outros estados tenham tantos símbolos que os identifiquem, e que sejam entendidos por outros estados, como o Rio de Janeiro possui,…mas continuo pesquisando…e certamente para esses outros estados, irei precisar de ajuda de designers locais, até mesmo para dividir a autoria, por que não?…Pois citando mais uma vez o Marty Neumeir: “não se faz um projeto de um livro sozinho.”

Mas há sim, em primeira mão, um novo projeto que já está saindo da gaveta: MARCAS BRASIL…aguardem 😉

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Sobre Beto Lima

Beto Lima é carioca, pós-graduando em Gestão Estratégica da Comunicação pelo IGEC/FACHA, cursou o mestrado em design pela ESDI/UERJ, designer e diretor de arte (membro do ART DIRECTORS CLUB OF NEW YORK/USA) com mais de 29 anos de experiência de mercado em design, publicidade e marketing de relacionamento. Já desenvolveu campanhas publicitárias, projetos gráficos, de merchandising e endomarketing, embalagens, campanhas de marketing, de ponto de venda, de promoção e identidade visual e tem vivência internacional. Possui um escritório próprio: STUDIO BETO LIMA Design.

Já foi curador, organizador e expositor da exposição gráfica Antes & Depois e participou de exposições de design nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e em Brno/Czech Republic.

Além disso, tem trabalhos e artigos reproduzidos em publicações especializadas em design, publicidade e marketing, é dono do blog Visual Delirium, sobre Direção de arte, Design e Branding, leciona nos curso de MBA de Branding das Faculdades Integradas Rio Branco no Rio de Janeiro, no curso de extensão de Branding/Gestão de Marcas na FACHA e nos MBAs de Gestão de Shopping Center e de Marketing & Inteligência Competitiva no Grupo IPOG em Goiânia . Em 2010, teve seu nome incluído na lista Top Marketing Professors on Twitter. Em 2012, participou no livro 8 Mandates for Social Media Marketing Success de Kent Huffman, onde 154 professores e profissionais foram convidados de diversas parte do mundo (incluindo David Aaker e Berenice Ring). Em 2013 foi um dos 10 jurados internacionais convidados no 2013 Rebrand 100 Global Awards.

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