Sustentabilidade Empresarial na Era Digital

A sustentabilidade é algo bastante recente, sendo que muitos ainda associam o tema somente com a questão do desenvolvimento ambiental de nosso planeta. De fato, o assunto começou justamente em 1972, com a Conferência de Estocolmo, quando os principais assuntos ambientais do planeta foram discutidos.

Em 1987, o documentário “Nosso futuro comum” já sustentava que deveríamos urgentemente suprir as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas. Em 1992, na Eco 92, no Rio de Janeiro, reafirmou-se através da Agenda 21 que todos os setores da sociedade poderiam cooperar no estudo de soluções para os problemas socioambientais.

Temas como o desenvolvimento sustentável, o combate ao desperdício e o Protocolo de Kyoto já faziam parte das discussões mais essenciais da vida em rede no planeta. Além disso, os conceitos sobre desenvolvimento econômico passaram a ser objeto de preocupação acentuada, culminando com a Cúpula da Terra, em 2002, realizada em Johanesburgo. Neste momento, a Cúpula já tinha a grande preocupação de reafirmar o conceito de desenvolvimento sustentável, bem como da cooperação internacional para os acordos de controle de gases de efeito estufa (GEE).

Exatamente em 2012, durante a Rio + 20, apontava-se uma necessidade muito grande de se discutir a economia verde, as questões sociais e, mais que isto, o conceito de conexão entre todos os stakeholders já era bastante agudo. Mas não para por aí: a sustentabilidade passa a ter uma visão muito clara da participação ativa das empresas, talvez justamente porque metade do PIB global passa pelas mãos delas. Desde então o tema da governança corporativa passou a ter um peso muito grande em todas estas discussões.

Passados apenas cinco anos desta discussão, já se tem uma visão muito acentuada das responsabilidades das empresas no tocante à responsabilidade que as mesmas têm em levar o assunto da sustentabilidade a um nível mais elevado e mais consistente.

A era digital tem sido o ponto nevrálgico, um nervo exposto para todas as questões ligadas à gestão empresarial, bem como das necessidades de se ter um componente empresarial mais ligado à vida orgânica da sociedade, em detrimento de uma visão de lucro a qualquer preço.

Sim, as empresas trabalham para a sociedade, não para seus acionistas. O lucro deve ser visto como decorrência de um conjunto de atitudes de protocolos empresariais, de políticas afirmativas que controlem suas externalidades, que deem uma visão mais participativa e colaborativa na construção daquilo que a sociedade preza.

A sustentabilidade dá em apenas 5 anos, um salto gigantesco frente às questões empresariais, projetando um mundo urgente e muito pautado pelas tecnologias e pela necessidade de mudança acentuada de plataformas de geração de valor.

Em 2009 o autor Henry Jenkins já pautava o assunto da convergência, que foi o movimento que tinha a tecnologia como pano de fundo nas questões do protagonismo. Tão importante foi o movimento da convergência, que o autor pauta a questão que convergência é quando as pessoas passam a tomar as mídias para que elas se pronunciem, invertendo inclusive o vetor de marketing.

As pessoas, desde então, nunca tiveram tanto poder nas mãos, nunca se pronunciaram tanto em tantos lugares ao mesmo tempo, de forma ativa e decisiva, comprimindo os ambientes de promessas corporativas, normalmente bem declaradas, mas pouco cumpridas em essência.

Há um movimento muito claro pelas novas formas diferentes e disruptivas de se fazerem as coisas e as inovações começam a ser buscadas intensamente em todos os meios em todos os lugares do planeta.

A sustentabilidade passa a ser então um mecanismo de gestão empresarial, que dá a exata noção do que as empresas fazem em suas plataformas de geração de valor à sociedade.

O pilar ambiental e o social têm particularidades mais bem capturadas, mas o econômico não. É difuso entre muitos, tendo o lucro no centro, visto por muitos como algo pecaminoso, como se as empresas não precisassem do lucro.

Uma empresa tem como primeira responsabilidade social discricionária o poder de conexão das economias no seu entorno. Claro que quanto mais ativa, mais contrata e mais economias geram no seu próprio eixo, gerando riquezas a partir de suas plataformas de promessas corporativas. Claro, não se pode pensar no verde quando se está no vermelho. Simples.

A inovação tem sido requerida com uma velocidade cada vez maior, porque são as pessoas que se movem a elas, em sua busca por um maior significado a elas mesmas e buscam este estágio de forma ativa e significante.

A inovação tem raízes no pilar econômico, pois traz em seu DNA as novas formas de conexão entre propostas diferenciadas, novas formas de fazer, novas promessas corporativas, novas plataformas colaborativas e muita abundância de soluções contrárias à ideia de escassez que assola o ambiente corporativo.

Michael Porter há muito defendia a ideia de que as empresas precisam pensar seus produtos e serviços como agentes de transformação social, delineados por uma experiência significativa, em um ambiente de grandes transformações exponenciais. Neste sentido, a inovação passa a ditar o sucesso econômico das empresas com uma potência nunca antes vista.

O autor Larry Downes fala com muita convicção que os setores social, político e econômico crescem em escala incremental, porém só a tecnologia cresce em escala exponencial sobre eles. Portanto, é claro que a tecnologia alterará de forma profunda e definitiva os ambientes sociais, políticos e econômicos.

A tecnologia se mostra como o único meio de se alterar profundamente e inexoravelmente estes ambientes, mas há efeitos colaterais muito urgentes. O ambiente de convergência, aliado ao aumento substancial da mobilidade e da densidade digital, faz com que as pessoas experimentem um ambiente de convergência total de meios, em ambientes de cultura participativa e de inteligência coletiva. Isso dá a elas a possibilidade de consumirem inovações constantes mudando tudo à sua volta, como comportamentos, hábitos e atitudes, resignificando tudo no seu entorno, criando uma vida em rede com infinitas possibilidades, mas de complexidades extremas.

Deste movimento, surge para as empresas talvez uma das demandas mais difíceis para elas suplantarem, que se trata da ética interativa. Este termo trata da ética construída quase que instantaneamente. É fácil entender este movimento; basta ver o que acontece nos ambientes políticos, com tudo se dissolvendo, sessões do Senado Federal praticamente acolhendo expressões da sociedade a todo momento, o poder das pessoas pontuando casos como a Samarco, United Airlines, Pão de Açúcar, Barilla, Odebrecht, AkzoNobel, Catacra Livre e uma série de outros exemplos quando o que as empresas falam é bem diferente daquilo que elas promovem à sociedade.

Este movimento praticamente pulveriza as marcas em opiniões externas muito potentes capazes de destruir uma plataforma inteira de marca, construída em anos e destruída em segundos, como parafraseava Warren Buffett.

O nome disto é ética interativa, que faz com que a preocupação com a experiência seja cada dia maior, acompanhando as declarações e formulações de políticas afirmativas potentes capazes de modelar a percepção da real colaboração das marcas na sociedade.

Em tempos líquidos, onde nada é feito para durar, como dizia o filósofo Zygmunt Bauman, nos faz pensar em um tempo urgente, de grande colaboração e de abundância de soluções através da tecnologia. Entretanto, enfrenta dificuldades extremas, devido ao grande número de paradoxos da intensa ambiguidade e paradoxalidade existentes hoje.

Claro que o ambiente de extrema transparência e de visão compartilhada e colaborativa cresce frente ao ambiente predileto das empresas, que é a competição feroz pela obtenção de fatias cada vez maiores de mercado e a obtenção dos lucros advindos deste meio, que perde significativamente frente aos novos drives de economia compartilhada, do capitalismo consciente.

Aliado ao fato de que a 4ª Revolução Industrial chama a atenção de todos e de forma inexorável para um novo mundo nunca antes visto na humanidade, de intensa e rápida de conjunção dos meios digitais, físicos e biológicos, que passam a ser o mesmo e que tudo isto tem a tecnologia no meio, e que a velocidade, a amplitude e a profundidade desta revolução está obrigando a todos repensar de que forma as organizações criam valor.

A tecnologia oferece a abundância que a humanidade precisa, desde processos mais simples de dessalinização de água do mar (usando materiais monoatômicos como o grafeno), bem como de processos de geração de energia (usando conceitos de mini grid), de energia renováveis, novos materiais como o Q-Carbon ou o germaneno, novas formas de se usar a robótica, a internet de todas as coisas, novos padrões preditivos, inteligência artificial, sistemas cognitivos, algoritmos, impressoras 3D e 4D, inclusive para imprimir alimentos e tudo ligado à medicina digital e à biologia sintética, processos que nos jogarão em uma outra civilização, não mais em uma nova geração.

Um futuro promissor e muito revelador. Mas há de se chamar a atenção para o fato de que o mundo ainda precisa se mover nesta direção e que a própria 4ª Revolução Industrial aponta para uma deficiência muito aguda, que é notadamente a ausência da governança digital, essencial para este novo mundo, exponencial, implacável, resignificante e urgente.

Aliado a isto, os ambientes da sustentabilidade empresarial serão gradualmente e fundamentalmente alterados pelas tecnologias disruptivas em patamares cada vez maiores de colaboração. Isto pode trazer conceitos de novas formas de geração de valor, usando cada vez mais novas formas de gestão empresarial, de conexão multistakeholder e compartilhamento intenso, em ambientes cada vez mais transparentes e conectivos da sociedade.

Sustentabilidade empresarial é modelo de gestão e, aliada à tecnologia, se mostra com um poderoso antídoto para o esgotamento da visão das empresas iterativas e competitivas, ainda muito marcadas pelos sistemas de gestão pré-internet, onde a competição prevalece em sistemas fechados, sem trocas com o nível intenso de mudança no meio externo.


Piazza

 

Carlos Piazza
Especialista em Darwinismo Digital, Consultor e Professor, conteudista, articulador e escritor, palestrante e Principal na CPC – Carlos Piazza Consultoria, dedicada aos impactos da disrupção na sociedade, oriundos da alta aceleração e transformação digital.

 


 

 

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