Estou revisando minha marca pessoal de três décadas e, ironicamente, caindo no dilema da autenticidade. Se isso soa como a crise dos 30, ótimo: pelo menos tenho marketing até no caos.
Confesso minha influência direta da Marcela Ceribelli, no livro Sintomas, que nos convida a nomear desconfortos para que possamos lidar com eles. Estou nesse exercício: colocar a lupa na rotina automatizada de uma publicitária que adora filosofar, buscando a raiz de uma questão latente: minha carreira. Dentro desse espaço, vou assumir marca como sinônimo de sintoma.
Assim como uma marca corporativa, nossa presença comunica quem somos, quais valores representamos e que tipo de experiência oferecemos. Vejo uma marca como um sintoma de repertório: um conjunto de vivências que nos torna únicos. Por mais honrada que esteja com minha história, também surge um incômodo que se amplia para reflexão coletiva. Esse conjunto sustenta a identidade projetada na origem e ela ainda faz sentido?
Avançando nas provocações, preciso falar sobre o livro Personal Branding, de Arthur Bender, que defende viver a própria vida como carreira — com consciência e proatividade. Aprendi que a marca pessoal se constrói pelas escolhas que fazemos. Logo nos primeiros capítulos, uma faísca: se você não sabe para onde ir, ao menos saiba para onde não quer ir. Com o tempo, isso nos permite diminuir o que ele chama de dissonância cognitiva — aquela distância entre quem idealizamos ser e como o mundo nos percebe. Nada mais justo que o presente seja a soma das nossas pequenas e grandes realizações.
Já que rotas estão em pauta, onde quero chegar ao unir uma obra sobre relacionamentos com outra sobre marca pessoal? Se nomear conceitos nos ajuda a assimilar manifestações antes invisíveis, com Marcela aprendi que rotular padrões nos permite identificar sinais e criar clareza para diagnóstico. Já com Arthur, compreendi que o diagnóstico é essencial antes de qualquer movimento: compreender o contexto e as lacunas não apenas para preenchê-las, mas para explorá-las — por vezes senti falta desse meu lado investigativo, sendo até resistente em aceitar que algo, dentro de mim, tinha mudado.
Mas o rebranding pessoal não acontece de forma isolada: ele reverbera nas pessoas ao redor. Deixar uma marca não é impressionar, mas plantar sementes no repertório alheio. Um conselho sensível, uma provocação certeira, a atenção plena — pequenos gestos com significativo impacto. No fundo, é a curiosidade dando um jeito criativo de transbordar.
Já ouviu aquela crença de que, se você precisa de um sinal do universo, peça que ele te presenteie com uma pena? Pois bem, Julia Cameron, no O Caminho do Artista, caiu sutilmente como uma. Ela coloca a criatividade como potencial divino, simplesmente por sermos feitos para criar! Em uma das atividades, ela propõe: “leve seu artista para passear”. Traduzo como momentos sem performance, sem expectativa. Aquele instante em que você simplesmente permite ser e estar, dando chance para o pensamento: “deixa eu ver o que eu sinto e posso fazer com isso”.
É o sublime da expressividade. Quero me conhecer tão bem que a dúvida também seja uma alternativa intrigante de caminho. Ser consistente, mas também flexível. Ser segura, mas não me opor ao imprevisível. Ser clara, mas não tão óbvia. Ser habilidosa, mas assumir fragilidades.
Ao romper barreiras, também recebi a indicação do Substack, no qual estou em teste como um novo canal de expressão. Um espaço para cutucar a escritora adormecida, estimular diálogos e brincar de brainstorm em quadro branco. Estou chegando em uma comunidade desconhecida. E é gostoso demais se aventurar no desconhecido, ainda que haja vulnerabilidade, ou que a rota precise ser, eventualmente, recalculada.
Risco à vista. Lá vou eu.
Aceitemos o convite à autenticidade: observar o que desperta o ímpeto de explorar, o que nos faz acordar animados e como desejamos nos construir. Filosofar sobre a vida é questionar se construímos algo verdadeiro ou apenas seguimos padrões de aceitação social. Revisar nossa marca pessoal é reconhecer que estamos em constante movimento.
Ser curioso é não ficar sem substrato para criar. Quanto mais perguntas, mais mundos se desenvolvem dentro de nós. No fim, foram minhas contradições que me guiaram de volta à essência: ser inventiva, questionadora e criadora de narrativas — em meio aos conflitos. Talvez eu esteja apenas estreando uma nova versão de mim, sem roteiro certo, mas com maior consciência das minhas escolhas.
Antes que eu esqueça, quando me dei uma pausa para entender onde havia parado, não encontrei muitas respostas, mas, de alguma forma, criei minha assinatura: autenticidade em movimento (seja ela qual for, para onde for).

Beatriz Ré Magro: Publicitária formada pela ESPM e especialista em Comunicação e Marketing Digital com foco em Branding pela Belas Artes, conecta marcas a pessoas há mais de 10 anos. Atuou em marketing 360° em empresas como Globo e Editora Santillana, foi Atendimento Publicitário de Ipiranga Postos pela agência Markcom e Gestora de Projetos de Marketing e Comunicação na ACIPI. Hoje é Especialista de Marca no grupo Cataguá Soluções Imobiliárias e também atua como consultora de Estratégia & Expressão para autônomos e negócios locais. Atleta amadora de endurance e maratonista, busca inspiração na criatividade, no comportamento humano e em projetos com propósito.