Quem acompanha o portal InfoBranding sabe que grandes movimentos de marca raramente são apenas mudanças visuais. Profissionais que trabalham com branding, gestão de marca e estratégia entendem que, por trás de um rebranding consistente, existe sempre uma mudança mais profunda de posicionamento, de visão e de lógica de negócio.
É exatamente esse tipo de transformação que a Avon apresenta agora na América Latina. Com 140 anos de história, a marca revela uma de suas maiores evoluções estratégicas e de identidade visual. O projeto foi desenvolvido pela 404 Innovation Studio e materializa uma nova visão para a companhia, que passa a se posicionar como uma Femtech. Na prática, a Avon passa a se enxergar como uma plataforma de inovação em que a tecnologia atua a serviço do universo feminino.
Para quem trabalha com gestão de marcas, fica claro que não se trata apenas de atualizar a estética. O projeto nasce de uma leitura da marca como um sistema vivo, algo que dialoga diretamente com discussões contemporâneas do branding estratégico. A própria 404 Innovation Studio atua justamente nesse campo em que consultoria de inovação e estúdio criativo se encontram, projetando marcas como estruturas que organizam negócios, cultura e experiência.
A nova identidade da Avon surge desse encontro entre legado e pensamento contemporâneo. Em vez de tratar a marca apenas como símbolo, o projeto busca estruturá-la como linguagem e como sistema. A lógica deixa de ser puramente estética e passa a funcionar como arquitetura de marca.
Uma das referências conceituais utilizadas no projeto é Ada Lovelace, pioneira da computação que viveu no século XIX. Ao transformar lógica em algoritmo, Ada estabeleceu uma forma de organizar pensamento em código. Essa ideia cria um paralelo interessante com o momento atual da Avon. Assim como Ada estruturou uma lógica para pensar o futuro, a nova identidade busca criar uma lógica operacional para a marca.
Inspirado por esse raciocínio, o projeto incorpora os símbolos < >, conhecidos na sintaxe algorítmica. Esses elementos passam a atuar como códigos de marca que estruturam diferentes pontos da identidade. Eles aparecem no logotipo, na tipografia, nos layouts, em motion e até na organização do portfólio, funcionando como um sistema modular que conecta diferentes expressões da marca.
Outra mudança importante está no logotipo. O quadrado que envolvia a marca foi removido, liberando a Avon de um contorno rígido. Com isso, a identidade ganha mais fluidez e abre espaço para uma expressão visual mais expansiva, alinhada com a ideia de evolução cultural da marca.
A tipografia também foi redesenhada para ampliar sua versatilidade em diferentes plataformas. O desenho se torna mais expressivo e vibrante, já pensado para o ambiente digital em que as marcas hoje constroem presença, relacionamento e relevância.
A paleta de cores acompanha essa transformação. Ela se torna mais ampla, dinâmica e plural, reforçando a diversidade como valor central da marca e refletindo diferentes vozes, histórias e estéticas do feminino.
Gabriel Fernandes, diretor global de Branding e Comunicação, explica que a intenção é posicionar a Avon em um novo patamar de tecnologia e design. Segundo ele, a ideia é que a mulher latino-americana perceba que a vanguarda tecnológica também pertence a ela. Ele reforça que o rebranding é apenas a parte visível de uma transformação operacional mais profunda e que a nova identidade foi pensada para ser fluida, expansiva e digital desde sua essência. O novo monograma AV, por exemplo, funciona como uma assinatura proprietária capaz de aparecer tanto no pequeno ícone de um aplicativo quanto no relevo de um batom, conectando diferentes frentes da marca dentro de uma master brand mais forte e contemporânea.
Para quem estuda e trabalha com branding, um ponto trazido por Mariana Balestra, COO da 404 Innovation Studio, ajuda a ampliar essa reflexão. Segundo dados da Kantar, cerca de 75 por cento do impacto de uma marca acontece em pontos de contato que não envolvem mídia paga. Isso significa que toda experiência de marca precisa ser cuidadosamente desenhada para impulsionar crescimento. Em um cenário de mídia cada vez mais fragmentado, pensar marcas como sistemas integrados deixa de ser apenas uma escolha conceitual e passa a ser uma necessidade estratégica.