Bad Bunny faz história na música e no Branding

Nos últimos dias, muitas pessoas se perguntaram quem era o porto-riquenho que lotou o Allianz Parque dois dias seguidos e, por apenas entrar no palco, gerou uma comoção de quatro minutos de gritos e aplausos de um público que esperava por sua chegada há meses. Como admiradora do artista, sua fama me pareceu óbvia e até tardia.

Benito Antonio Martínez Ocasio, conhecido por seu nome artístico Bad Bunny, nasceu em 1994 em Porto Rico, território não incorporado dos Estados Unidos, e vem construindo sua carreira há mais de uma década. Já há alguns anos, seu sucesso internacional em países como Espanha e Portugal tem chamado atenção, entretanto, foi apenas com o seu último albúm, “DeBÍ TiRAR MáS FOToS” e seu show de menos de quinze minutos no Super Bowl, que ele se tornou o artista estrangeiro mais escutado no Brasil no Spotify (BBC), feito inédito já que nunca havia sido ao menos um dos cinquenta mais ouvidos, no país que mais escuta música nacional.

Seu sucesso repentino pode se dar por diversos motivos, como seu show do Super Bowl ter sido o primeiro a ser transmitido na Globo, ao aumento de ouvintes de reggeton no Brasil, mas, o que mais se aproxima da minha percepção seria o que o Prof. Dr. Rafael Noleto evidenciou ao G1. Segundo o antropólogo, o sentimento de união entre os latinos (algo não comum, já que apenas 4% dos brasileiros se consideram latino-americanos), tem crescido devido às medidas tomadas pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Essas medidas, que envolvem práticas militares, políticas e econômicas contra latino-americanos e seus respectivos países, voltam a retratar a região como o quintal dos EUA, como era levado na Doutrina Monroe.

Entretanto, apesar das movimentações políticas, uma onda cultural vem contra as mesmas. Desde 2017, estéticas latinas e principalmente o que é chamado de “Brazil Core”, vem ganhando espaço na moda dos Estados Unidos e da Europa e elementos que antes eram considerados “cafonas”, hoje são tendência.

Não é novidade que vivemos em uma guerra cultural desde o início da globalização e essa já teve ganhadores como Estados Unidos e Europa e alguns jogadores que se mantêm em constante pódio, como Japão e Coreia do Sul. Mas a América Latina, com suas favelas, fios expostos e roupas consideradas vulgares e muito coloridas, nunca chegaram perto do topo. Entretanto, com certas tendências nas redes sociais, principalmente TikTok, Pinterest e Instagram, elementos como chinelos Havaianas, biquínis de fita, acessórios chamativos e estampas coloridas, tem preenchido o feed das plataformas.

Essa mudança cultural pode ser debatida em muitos níveis, sendo avaliada como boa por alguns, já que valoriza elementos nacionais e latinos, sendo possível assim um olhar mais curioso e crítico acerca da região, mas também é vista como “uma exportação vazia, sustentada em estereótipos e com traços de apropriação cultural.” (BBC). Independentemente dos seus resultados culturais e econômicos no médio e longo prazo, hoje, algo é certo, os estrangeiros estão mais interessados na cultura latina e algo mais significativo, os latinos americanos se mostram mais orgulhosos de sua própria cultura.

Todo esse contexto poderia ser a explicação completa do motivo do sucesso de Bad Bunny, mas quem conhece minimamente o artista, sabe que isso foi apenas uma alavanca.

Seu último álbum, “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, lançado em janeiro de 2025, é mais do que apenas algumas músicas novas, é um manifesto. Desde a capa pode-se perceber o porquê: o que para muitos do norte global foi necessário uma explicação, para a maioria do sul global foi um abraço às memórias.

A foto é simples, vegetação nativa e duas cadeiras de plástico, mas seu significado é grande para quem tem alguma fotografia parecida, guardada em um álbum, com familiares e amigos. Logo após o lançamento, muitos fãs compartilharam suas memórias nas redes sociais, que tinham como fundo, cenários extremamente parecidos.

Além disso, por todo o álbum, seja com os ritmos de reggeaton, com palavras ou rimas, o artista foi envolvendo os ouvintes, os conectando emocionalmente com sua arte.

Para agregar ainda mais valor político e educativo, cada faixa conta com um visualizer (imagem que acompanha o áudio), a conectando com algum material que explica o contexto da música. Um exemplo seria a primeira música, “NUEVAYoL”, que é apresentada em conjunto a um texto escrito pelo historiador Jorell Meléndez-Badillo, que explica a criação da bandeira porto-riquena por exilados em Nova Iorque. Sem demonstrar problemas em explicar sua arte, Benito evidencia a história de seu país e de sua cultura.

Ao longo do álbum, analisando elementos como os clipes, as letras e os artistas convidados, percebe-se a força da obra. As produções audiovisuais foram dirigidos Jacobo Morales, cineasta porto-riquenho, as participações são de artistas como RaiNao, Chuwi e Omar Courtz, ainda pouco conhecidos e frases como “Na minha vida, você foi turista, só viu o melhor de mim e não o que eu sofria”, que vão além do cunho pessoal, sugerindo a falta de um turismo responsável aos países latino-americanos, são apenas exemplos de características que explicam a grandeza da obra e como ela chegou nos mais ouvidos do mundo em 2025.

Com um grande sucesso, espera-se uma grande turnê e foi isso que Bad Bunny entregou aos seus fãs. Passando por vinte países, com datas extras e estádios lotados, Benito decidiu não realizar nenhum show em solo estadounidense. O boicote foi muito bem aceito por seus fãs, que viajaram à Porto Rico para assistirem ao show.

O concerto tem entregue o mesmo nível do álbum: dois palcos, três figurinos, participações especiais, fãs na “casita” (palco secundário), homenagens locais, dançarinos, fotos do público no telão e uma luz interativa em formato de câmera fizeram do show um espetáculo inesquecível.

Porém, não foram apenas as escolhas de Bad Bunny que chamaram atenção. A plateia com roupas latinas, flores no cabelo, bandeiras de países da América e a surpresa ao artista, uma onda de flashes de celulares que brilhavam com as cores da bandeira de Porto Rico, provam o que Benito conseguiu construir nesse último ano, algo que vai muito além de seus prêmios.

O artista conseguiu trabalhar de forma autêntica e genuína, elementos fundamentais para a construção e sucesso de qualquer marca. Além de entregar um ótimo produto, Bad Bunny se consagra como uma marca pessoal no momento em que se conecta com o público gerando identificação, por meio de valores, personalidade, posicionamento claro, consistência, comunicação assertiva, e acima de tudo, confiança e autoestima a uma cultura tão esquecida e tão rica.