Empreender é um ato heroico no Brasil. Há de se travar muitas batalhas contra todas as grandes probabilidades que as estatísticas apontam: Aproximadamente 96% das pequenas empresas decretam falência todos os anos e, além disso, segundo o SEBRAE, 50% dos empreendimentos que decretam falência nos cinco primeiros anos não apresentaram estratégias de gestão enxuta. No entanto, tal conhecimento acerca da metodologia de gestão enxuta, para grande parte da população brasileira, ainda não é acessível. Apesar da vontade e necessidade, a maior parte dos brasileiros nunca tiveram formação em gestão, em educação financeira, tampouco em visão estratégica de negócios. A metodologia da Startup Enxuta, ou Lean Startup, neste caso, é uma possível solução para que este negócio seja embasado e estruturado de uma forma saudável e sustentável.

Quem são nossos heróis?

Estes heróis são responsáveis por 27% do PIB brasileiro, e estão conquistando cada vez mais espaço na economia. Segundo o SEBRAE (2019), 63% deles chegam ao ensino superior, mas não necessariamente concluem o curso. 71% tem o seu próprio negócio como única fonte de renda e 76% deles têm renda familiar superior à seis salários mínimos. Não estamos falando de empreendedores abastados, mas sim de uma parcela da população que está ainda começando e que, pouco a pouco, encontra seu espaço e consegue sustentar sua família de uma forma digna, fugindo dos salários de R$2.500, vale-transporte e ticket alimentação.

O que é a Economia Criativa?

As chamadas “ciências econômicas” buscam lidar com o desafio de relacionar as necessidades dos indivíduos (que são infinitas) com os recursos disponíveis (estes sim são finitos). Já o termo “criatividade” remete a inventividade, inteligência e talento, natos ou adquiridos, para criar, inventar, inovar. John Howkins, um dos principais pensadores do século XXI a respeito da Economia Criativa disse que a criatividade não é produto, é processo. A criatividade aliada aos elementos endógenos de uma nação, destacando a cultura que é desenvolvida e produzida nacionalmente. Esta cultura, que é matéria prima da criatividade, quando aliada ao empenho em enriquecer o produto gerado, é fonte de desenvolvimento – com alcance irrestrito (uma vez que o atual contexto de uma sociedade cada vez mais conectada com outras nações) e, portanto, com potencial impacto de desenvolvimento da economia local, regional e nacional.

A Economia Criativa está fundamentada em quatro principais categorias, sendo elas: Cultura, Design, Mídia e Inovação. Apesar de, no Brasil, representar menos de 3% do PIB brasileiro, globalmente a indústria criativa cresce cerca de 6% ao ano, ou seja, duas vezes mais rápido do que os serviços tradicionais, e quatro vezes mais rápido do que as indústrias tradicionais, globalmente, segundo a OCDE.

É importante lembrar que a singularidade da cultura de um povo confere valor agregado aos seus produtos criativos e proporciona uma vantagem competitiva frente a outros mercados. Não há como copiar o substrato cultural que caracteriza determinadas produções e manifestações. Isso é visto e confirmado na valorização do gênero musical carioca MPB (Música Popular Brasileira) difundido mundialmente em meados da década de 60, em produtos simples de varejo de baixo custo, como a popular marca brasileira de sandálias de borracha Havaianas.

Conceitos básicos da Startup Enxuta

Para os que não são familiarizados com a metodologia, Eric Ries coloca de forma simples e estruturada alguns conceitos que, juntos, formam uma metodologia de gestão e, mais importante, de mudança de mentalidade.

  • Criar um produto que seja co-construído a partir de uma motivação ou ideia e o público-alvo, estando aberto à mudanças e adaptações;
  • Pensar grande e começar pequeno – reduzir ao máximo o tempo de criação do produto, focando os esforços no desenvolvimento de um MVP (minimum viable product, ou seja, o mínimo produto viável que entrega a solução da forma mais enxuta possível);
  • Aperfeiçoar continuamente o produto aplicando o ciclo Construir – Medir – Aprender expondo o mesmo ao público interno e externo;
  • Testar repetidamente o produto com o público alvo e estar aberto a mudar (ainda que radicalmente) o produto – o chamado “pivotar”;
  • O crescimento da empresa é um efeito colateral do próprio produto; anúncios devem ser feito de forma enxuta e racional.

Contarei três histórias inspiradoras de empreendedores brasileiros que, contra todas as probabilidades, conseguiram estruturar um pequeno negócio no setor da economia criativa, e que demonstram na prática como a metodologia Start Up enxuta esteve presente e de forma decisiva para que o negócio prosperasse.

FLIP

Concebida em 2003 com o objetivo de promover, em Paraty, uma cidade longe dos centros culturais e das capitais, uma experiência única de encontro de pessoas, permeada pelas artes. Por iniciativa da ONG Casa Azul e liderada pelo arquiteto Mauro Munhoz, iniciou com um espaço improvisado e contava com cerca de vinte convidados. A criação da FLIP teve um impacto imensurável nesta comunidade local: deu representatividade internacional e altíssimo impacto na autoestima da população local, e ajudou a protagonizar a recuperação do tecido socioeconômico da cidade, além de promover o fluxo contínuo de turistas com perfil qualificado para consumir os produtos artísticos, além de engajar a comunidade em um processo de protagonismo na transformação de seu futuro. Na edição de 2019, contou com trinta e sete autores participantes, e mais de oito mil acessos à tenda que cobra por ingressos, segundo a própria organização da Feira.

FA.VELA

Movido por sua curiosidade e por suas reflexões dadas pelo seu contexto social e econômico, João Souza, jovem negro mineiro, habitante de uma comunidade e com oportunidade de ter uma educação formal, conseguiu ver como esta posição de privilégio possibilitaria coloca-lo em uma figura de agente de transformação da vida das pessoas por meio de desenvolver potencial criativo das pessoas. Assim, idealizou um ecossistema dentro da favela, o Fa.Vela, dialogaria com o contexto da cidade e do entorno dela, minimizando sua segregação econômica e social. Fez um de seus primeiros pilotos com Gilmara, uma jovem negra que era conhecida e admirada pelo seu cabelo afro. João imaginou ajudar a estruturar um salão de beleza mas, Gilmara, conhecedora de seu nicho e com motivação de fazer algo disruptivo em sua comunidade, quis montar um spa para noivas. Era um produto pioneiro e inovador na favela, e que além de movimentar a economia da favela, ainda teria um impacto secundário positivo na mesma, pois ajudaria a empregar profissionais da indústria dos casamentos (maquiadores, fotógrafos, por exemplo). O empreendimento deu tão certo que Gilmara, também com o apoio da Fa.Vela, abriu o segundo estabelecimento.

TAG

Em 2014, Arthur Dambros, em uma biblioteca, teve um impulso empreendedor que compara ao impulso de um artista: de se expressar e ver influência do seu trabalho na vida das pessoas. Com amor inquestionável aos livros, junto ao seu sócio, pensou em fundar um clube de livros e, assim, nasceu a TAG. O modelo de assinatura e de clube de livros já existia há tempos, mas não um com este formato: um clube de assinatura, com uma curadoria de grife: a TAG convida grandes nomes para selecionarem quais livros serão enviados. O crescimento da TAG se deu a partir do poder das redes sociais como uma ferramenta que possibilite o crescimento como efeito colateral do próprio produto e de forma viral; conseguiu, com verba de propaganda enxuta, investir em anúncios que promoviam a indicação da TAG por grandes influenciadores digitais relevantes ao nicho; aproveitou para também se alavancar nas grandes personalidades literárias convidadas para fazer a curadoria dos livros; e, finalmente, pela natureza do modelo de negócio, a TAG funciona por meio de uma assinatura -, ou seja, garante que o usuário do produto seja recompensado e surpreendido todas as vezes que recebe o produto. A TAG também se diferencia de demais clubes de assinatura à medida em que foi crescendo pois aposta em edições exclusivas, personalizam algumas ilustrações e também traduzem as obras. A TAG cresceu tanto que, em 2016, chegou a ter vinte mil assinantes.

Estes são alguns exemplos de empreendimentos de sucesso que, para se estruturarem, ajustarem e crescerem, seguiram muito do que Eric Ries coloca em sua obra Lean Startup. Apesar da simplicidade, não é obvio e tampouco confortável seguir estes passos.


Referências

FIRJAN SENAI. Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil. Fevereiro, 2019.

HOWKINS, J. The Creative Economy – how People make Money from ideas. Londres: Penguin Books, 2001.

RIES, Eric. A Startup Enxuta: como os empreendedores atuais utilizam a inovação contínua para criar empresas extremamente bem-sucedidas. Editora Casa da Palavra, 2012.

SEBRAE – Disponível em http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae> Acesso em 27/setembro/2019.

FA.VELA (site institucional). Disponível em <https://favela.org.br/a-bordo/> Acesso em 02/Fevereiro/2020.

TAG Livros (site institucional). Disponível em < https://taglivros.com/> Acesso em 02/Fevereiro/2020.

FLIP (site institucional). Disponível em < https://www.flip.org.br/> Acesso em 02/Fevereiro/2020.


Alessandra Gaeta: Profissional do Marketing apaixonada por construção de marca, atuando na área há 7 anos, tanto no ambiente da multinacional americana P&G, quanto em ambientes de startup. Entusiasta de modelos de gestão enxutos e eficientes, de como o ambiente digital pode conectar as pessoas e determinada a semear estas ideias. Graduação em Engenharia Civil na UNICAMP, Pós Graduação em Gestão de Economia Criativa pela Belas Artes. Acredita no poder da criatividade, educação e cultura para transformar o mundo.


Imagem: Proxyclick Visitor Management System.

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