Da abertura ao encerramento, a edição 2026 do Brand & Design Management reuniu quatro palestras e duas mesas-redondas em torno de uma única pergunta, “num trabalho movido a inteligência artificial, o que continua sendo insubstituível, e como isso constrói marcas mais fortes?”.
Desde 2017, o Brand & Design Management (BDM) leva ao gestor de marca, de forma descomplicada, os temas que estão movendo o mercado. Em 2025, a inteligência artificial foi o centro do debate. Neste ano, o InfoBranding e a Midiaria.com viraram a lente para o outro lado da equação: se a IA já faz parte da rotina, o que resta de insubstituível em nós? Foi essa pergunta que atravessou toda a manhã do BDM 2026, sob o tema IRREPLICÁVEL: talentos + humanos = marcas + fortes.

Quem abriu o dia foi Alessandro Saade, com a palestra “Geração IA: impacto social e o futuro do trabalho”, a qual girou em torno da reflexão que a IA é apenas uma ferramenta e seu valor está em quem a utiliza. Apoiando-se de uma linha do tempo, Alessandro dividiu conosco um pouco da história da humanidade e como por diversas vezes, houve-se um medo das consequências de novas tecnologias e avanços da ciência. Consequentemente, com a Inteligência Artificial, isso não seria diferente.
Sua principal analogia foi de que a IA seria como um machado de pedra lascada, uma ferramenta cujo resultado depende da habilidade de quem a maneja, o que leva a sua conclusão que conduziu a nossa manhã: a capacidade de se adaptar e mudar vale tanto quanto o conhecimento técnico. No fim, resumiu, a solução sempre será humano com humano.
“Entenda o novo, tente, erre, aprenda, melhore, evolua”, já que as cicatrizes fazem parte do crescimento.
Em seguida, com a participação do Saade, Paula Baldini e Cristiane Fiorezzi, tivemos a nossa primeira mesa-redonda que aprofundou essa reflexão. Conduzida por Gabriel Meneses, gestor executivo do InfoBranding, “O Novo Humano: aprender, adaptar, evoluir”, foi uma troca enriquecedora de ideias e perspectivas. À priori, foi dividido com o público que por mais que a IA possa acelerar de forma inigualável os processos, é necessário lembrar da relação entre profissionais humanos, que conseguem entender um ao outro com uma competência que a máquina ainda não assume. E para que isso seja possível da melhor maneira, a saúde física entrou no debate como base do equilíbrio necessário para enfrentar as mudanças constantes e para que a relação humana seja mais facilmente tratada.
Por fim, tivemos uma ideia que amarrou toda a conversa e poderíamos resumir à uma palavra, repertório. Usar inteligência artificial para ser um profissional que se destaca é sobre saber dar contexto às ferramentas e para isso, precisa-se de bagagem, a soma de experiências que permite usar qualquer ferramenta com critério.


Se a manhã vinha construindo o argumento a favor do humano, Anahy Couto trouxe o contraponto em “Como garantir alta performance humana sem IA”. Usando o futebol como metáfora, descreveu dois mundos que convivem no mesmo mercado: de um lado, profissionais que mal usam o WhatsApp e ainda preferem listas no papel; do outro, setores totalmente automatizados, capazes até de contabilizar quantas vezes um jogador respira em campo. E seu recado não foi sobre a escolha de um dos lados, tratando o outro como extremo, mas sobre saber transitar entre os dois, reconhecendo o valor que cada um representa, um para nossa evolução tecnológica e o outro para lembrarmos sempre da nossa humanidade.
Ademais, a psicóloga trouxe sua atuação direta nos campos e nas game houses, já que também atua com jogadores de E-Sports, lembrando que por trás das métricas de desempenho e alcance de vídeos nas redes sociais, existem pessoas por trás dos infinitos comentários negativos, que, diferentemente de anos atrás, quando uma crítica saía no jornal ou pelos gritos dos estádios, que logo eram esquecidas, hoje, se perpetuam por dias. Seu propósito é lembrar da importância do cuidado atento à saúde mental para a performance de todo e qualquer profissional.

Após uma pequena pausa, tivemos a presença de Daniel Portuga, que levou a discussão para o terreno da criatividade com uma palestra sobre “Como trabalhar a criatividade na era da IA” pelo mesmo caminho da conversa com Anahy, lembrou que no fim do dia o CPF e o CNPJ são a mesma pessoa e ambos os lados pedem atenção para que os resultados saiam como esperados. Em um cenário que cobra produtividade e resultados constantes, Portuga nos lembra da necessidade de um ritmo sustentável, que zela por quem está por trás da tela, porque não há repertório criativo que resista ao esgotamento.
Por fim, com clima descontraído, Portuga brincou que não gostava, ou melhor, odiava a palavra resiliência, isso porque seu significado é a capacidade de um corpo de se adaptar, se recuperar ou retornar ao seu estado original após passar por um momento de instabilidade e segundo o criativo, ninguém volta a ser o mesmo após passar por um choque, pressão ou situação difícil.
Em seguida, chegamos no momento da segunda mesa-redonda com o tema “Marcas mais humanas na prática”, em que Débora Machado mediou a conversa entre Rodrigo Roccasecca e Paula Soria. Para os participantes a marca humana não pode ser apenas um discurso (criado por um prompt rs), mas sim uma prática que deve ser diária. Antes da orientação por dados e da urgência por performance, o diferencial se encontra em entender na essência o consumidor, não de forma encenada, mas com empatia e troca, o que gera conexões duradouras.


Quem encerrou a manhã do BDM 2026 foi Caio Pamphilo, que se apresentou como um contador de histórias. Citando Seth Godin, para quem “marketing não é mais sobre as coisas que você faz, mas sobre as histórias que você conta”, lembrou que a arte de narrar é muito anterior ao marketing. Da tradição oral à era digital, é a história que nos torna humanos, nos une e produz comunidade, e histórias bem contadas acabam virando pactos coletivos. Em seguida, Caio apontou a virada que mudou o jogo das marcas, hoje, quando uma cresce ao gerar conversas, o consumidor valoriza tanto ter um produto quanto poder falar sobre ele.
Para não ficar na teoria, ele contou a própria trajetória. Passou anos construindo marcas e liderando transformações digitais de peso, com resultados expressivos de alcance e imprensa, até que um episódio de burnout o obrigou a desacelerar e, no esgotamento, reencontrar aquilo que o movia. Esse percurso sustentou o fio da palestra. Relacionamento é a chave para tudo, e a história é o que conecta cada ponto de contato, do produto ao PDV, do e-commerce à equipe, dos eventos às campanhas. Ele fechou com um roteiro prático, que passa por dar ao produto uma história única, transformar cada canal de venda em experiência, criar cultura e envolver a equipe, buscar referências fora da zona de conforto e ativar a marca com parcerias estratégicas. A regra que amarra tudo é garantir uma boa história em todos os pontos de contato. E deixou no ar uma provocação que serve a qualquer gestor de marca. Qual é a boa história que a sua marca pode contar?
Da abertura ao encerramento, a manhã do BDM 2026 seguiu por um mesmo caminho: a IA mudou as ferramentas, não aquilo que nos torna valiosos. Repertório, escuta, empatia, coragem para errar e a história de cada um continuam sendo o que nenhuma tecnologia replica, e é justamente esse conjunto que, no profissional e na marca, sustenta a diferença ao longo do tempo. Irreplicável, afinal, voltou a ser o adjetivo que o mercado aprendeu a valorizar.
Maria Clara Auriani
Marketing & Content InfoBranding. Profissional de Marketing e Comunicação com experiência de 6 anos em marketing digital, atuando atualmente na área comercial e de comunicação do portal InfoBranding. Formação técnica em Adm. (FECAP), formada em Mkt (Belas Artes) e graduanda em Adm. (Mackenzie). Possui vivência internacional com módulos acadêmicos em Oxford (Inglês) e Porto, Portugal (Negócios).