Você já se sentiu confuso ao fazer uma compra? Já comprou algo e, mesmo assim, não saiu satisfeito? Pois é, eu também.

Nos dias atuais, novos produtos com várias versões e milhares de funcionalidades surgem quase que exponencialmente. Olhando para qualquer empresa, segmento, tipo de produto, serviço e até possibilidade de entretenimento é perceptível o mundo de opções e isso nem sempre é bom.

Print Depicting Workers at a Textile FactoryA faísca desse boom aconteceu na revolução industrial e se potencializou desde então. Diversos acontecimentos suportaram, apoiaram ou nos trouxeram até aqui, entre eles, alguns tiveram papel importante como: criação do design, o fim da segunda-guerra mundial, a solução de Victor Lebow para o mercado americano, o boom econômico mundial que resultou numa revolução social e daí em diante, mudanças de hábitos, opções culturais, novos estilos de vida e a nova família onde as mulheres são influenciadoras.

Desde então as pessoas têm a sensação de que quanto mais opções melhor, no entanto, como diria Ludwig Mies van der Rohe, menos é mais. As pessoas só não têm noção disso, eu mesmo não tinham noção disso. Quando fui apresentado ao estudo de Sheena Iyengar (onde ela descobriu que as pessoas quase sempre se arrependiam da decisão de escolha entre trinta variedades de geleia, e que a maioria se sentia satisfeita ao fazer escolhas entre cinco) e, depois, assisti ao vídeo do TED Talks em que Barry Schwartz explica o seu estudo sobre O Paradoxo da Escolha comecei a analisar algumas ações de compra que tive, a rever lançamentos e acontecimentos a minha volta e percebi tudo de uma nova maneira, inclusive contestando algumas ações tomadas por grandes empresas.

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Por exemplo, quando fui apresentado ao mundo da computação, não tinha condições de ter uma máquina. Na época a Intel reinava absoluta e poucas empresas montavam computadores, o que tornava o produto inacessível. Pouco tempo depois o reinado da Intel caiu e a AMD trouxe um mundo de possibilidades para as pessoas, eu incluso.

Após esse marco, do início dos anos 2000 até pouco tempo atrás montei computadores personalizados, quase que como eu queria. Notem o “quase”, as opções eram tantas e atingiam um grau tão alto de sofisticação, desempenho e mais um monte de atributos que podem ser traduzidos para alto custo, que meu orçamento limitado não me permitia comprar, fazendo com que eu voltasse pra casa com um bom computador, mas sonhando com um melhor.

Muitos não achariam uma má estratégia, comprei um produto, sonhei com outro e muito provavelmente numa próxima compra, mais maduro e com mais dinheiro, compre o produto top de linha.

Acontece que a personalização perdeu espaço para a simplificação, que fez muitos fabricantes de componentes de computador sumirem e trouxe para nós, no caso eu, cliente novas marcas, novos produtos e um mundo de possibilidades bem mais simples, desse ponto em diante a coisa só se simplificou, de computadores pessoais para notebook, desses para netbooks e desses últimos para tablets. Sem falar em sistemas operacionais.

Mais velho, só para citar um segundo exemplo, decidi comprar um carro. Na época a Fiat estava lançando o novo Uno com o apelo de personalização, talvez embalada pela onda do tuning, o carro tinha seis versões e milhares de itens personalizáveis, um hotsite onde você montava “o seu”, imprimia as configurações, levava numa concessionária para comprar como você queria e… não conseguia.

Os concessionários encomendavam apenas algumas versões do carro e já com os itens de personalização que achavam que teriam mais demanda, em outras palavras, você ia comprar um carro personalizado e comprava um carro normal só que com as configurações que a concessionaria “escolheu” pra você!

Pior, o Uno começou a ter problemas de revenda, se a pessoa não quer um carro personalizado por outra pessoa quando ele é zero quilômetro, imagine um usado? A Fiat mudou um pouco o posicionamento do carro e não aposta tanto na personalização. E eu, bem, acabei comprando um Sandero Stepway da Renault, que na época só tinha duas versões e dois pacotes de personalização: conforto e segurança.

Comecei a analisar a onda da simplificação e percebi que já tem muita gente trabalhando nessa corrente. Ainda bem!

Num mergulho raso, pelo mundo digital, sites como Buscapé, Decolar, Rentacar e Booking são bons exemplos de simplificação, um reúne melhores preços de produtos, outro companhias aéreas, outros empresas de locação de carro e, por fim, hotéis. Esses sites são hubs que facilitam a vida do consumidor, verdadeiros tiradores de teima que fazem você ter a sensação da melhor escolha, sistemas simples onde você imputa dados e variáveis, e eles retornam as melhores ou “todas” opções.

De olho nisso, outras grandes companhias que trabalham com catálogos imensos, como Amazon estão passando a sugerir “o melhor” para seus clientes, a fim de não tornar a experiência um tanto chata, confusa e muito cheia de opções. Não à toa a Netflix lançou, nos EUA, um prêmio de US$ 1 milhão para quem desenvolvesse o sistema de recomendação mais avançado do mundo, pois é mesmo ruim você selecionar um filme tendo tantas opções.

Com isso, é necessário “desenhar” bem a liberdade de escolha que você vai dar a seus clientes, a fim de simplificar a oferta e fazer realmente que menos seja mais.

Barry Schwartz: The paradox of choice

 

eric mirandaEric Miranda

É Designer Gráfico formado pela Oswaldo Cruz, especializado em comunicação para o mercado. Analista de comunicação na Serasa Experian. Desenvolve materiais para campanhas de incentivo, eventos, feiras e convenções, além de material gráfico para apoio a vendas. Faz gestão de clientes e fornecedores e atendimento. Interessado por consumo de alto padrão, design da mobilidade, cultura, gastronomia e música.

 

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