Na Fórmula 1, vencer corridas é essencial. No entanto, em um esporte movido por velocidade, tecnologia e grandes patrocinadores, conquistar espaço na memória do público exige muito mais do que resultados. Em um grid com 22 pilotos, onde todos competem pelo mesmo objetivo, se destacar também depende da capacidade de construir uma identidade autêntica e facilmente reconhecível.
É nesse contexto que Lando Norris se torna um excelente exemplo de branding pessoal.
Muito antes de conquistar o título mundial, Norris já demonstrava preocupação em criar uma identidade própria, no início de sua carreira, utilizava um capacete com tons de amarelo e azul neon, inspirado em Valentino Rossi, lenda da MotoGP e uma de suas maiores referências, mas a partir da temporada de 2024 que essa identidade deixou de ser somente uma homenagem e sim sua marca pessoal.
O piloto passou a utilizar um capacete amarelo neon, acompanhado por elementos gráficos que lembram rabiscos feitos à mão, enquanto a maioria dos pilotos opta por pinturas sofisticadas, repletas de detalhes e efeitos visuais, Norris escolheu um caminho diferente: um design simples, irreverente e altamente reconhecível.
Essa decisão revela um dos princípios fundamentais do branding: a diferenciação. Marcas fortes não são lembradas apenas por serem bonitas, mas principalmente por serem únicas, consistentes e facilmente reconhecidas, elementos como cores, formas e linguagem visual funcionam como atalhos mentais que facilitam o reconhecimento imediato. Da mesma forma que o vermelho remete instantaneamente à Ferrari ou a combinação entre azul e rosa é imediatamente associada à Alpine, o amarelo neon se torna um elemento central da identidade visual de Lando Norris dentro e fora das pistas.
Porém, o branding não se resume à identidade visual, segundo Aaker (1996), uma marca não é definida apenas por seu logotipo, mas principalmente por sua personalidade, seus valores e pela forma como estabelece conexões com seu público. A construção de uma marca forte ocorre quando os valores transmitidos dialogam com os valores compartilhados do seu público.
No caso de Lando Norris, sua marca pessoal comunica simultaneamente entusiasmo, autenticidade e competência. Seu estilo visual transmite uma imagem descontraída, enquanto seu desempenho nas pistas reforça credibilidade e excelência esportiva, essa combinação reflete um desejo comum entre seu público, especialmente entre os fãs mais jovens, ser competente sem abrir mão da leveza, da autenticidade e da diversão.
Em entrevista à Vogue, o piloto afirmou: “Para mim, a prioridade é aproveitar a vida e me divertir. A segunda prioridade é tentar ganhar o campeonato.” A fala representa a essência de sua marca pessoal, competir em alto nível sem abrir mão da autenticidade e do prazer pelo esporte.
A consistência entre discurso, comportamento e identidade visual é um dos pilares do branding. Quando todos os pontos de contato comunicam a mesma mensagem, a marca se torna mais forte, mais confiável e mais fácil de ser lembrada.
No caso de Norris, até mesmo a escolha das cores foi feita de maneira estratégica na perspectiva da psicologia das cores, o amarelo está associado à alegria, ao otimismo, à energia, enquanto o preto transmite poder, autoridade e liderança. A combinação dessas cores cria uma identidade visual marcante, capaz de comunicar simultaneamente proximidade e competitividade, características alinhadas ao posicionamento da marca pessoal do piloto.
Essa repetição constante da mesma identidade visual fortalece o reconhecimento da marca e evidencia conceitos amplamente estudados por Byron Sharp (2010) e Jenni Romaniuk (2021) que é a Disponibilidade Mental, definido como a probabilidade de uma marca ser lembrada em diferentes situações de compra ou consumo,Segundo Sharp (2010), quanto maior a disponibilidade mental de uma marca, maiores são as chances de ela ser considerada pelo consumidor, já que o cérebro tende a recorrer às opções que reconhece com maior facilidade.
Nesse contexto, o amarelo neon funciona como um Ativo Distintivo de Marca, conceito desenvolvido por Jenni Romaniuk (2021) que são elementos não verbais, que funcionam como gatilhos de memória capazes de fazer o consumidor identificar imediatamente uma marca, mesmo sem seu nome ou logotipo,quanto mais consistente for a utilização desses elementos ao longo do tempo, maior será sua capacidade de reduzir o esforço cognitivo necessário para o reconhecimento da marca e fortalecer sua presença na memória dos consumidores.
Outro conceito importante é o da fragilidade da memória. Segundo Sharp (2010), consumidores não permanecem pensando constantemente em uma marca, por isso, ela precisa ser continuamente lembrada por meio da repetição consistente e Lando Norris aplica esse conceito de forma incrível onde, sua estratégia vai muito além do capacete, o amarelo neon está presente em seus produtos oficiais, coleções de roupas, campanhas publicitárias, em sua parceria com a Monster Energy e até mesmo na Landostand, arquibancada temática destinada aos seus fãs durante o Grande Prêmio da Grã-Bretanha reforçando á todo momento a associação entre a cor e o piloto, tornando seu reconhecimento praticamente automático.
O público percebe essa consistência. Os fãs não adotaram apenas o amarelo como símbolo do piloto, eles passaram a incorporar a filosofia que essa identidade representa. A leveza, o bom humor e a autenticidade são características associadas ao nome de Lando Norris,transformando a admiração em identificação.
Como consequência, a marca pessoal de Lando Norris alcança simultaneamente dois atributos considerados essenciais por Romaniuk (2021): alta fama (Fame) e alta singularidade (Uniqueness). Enquanto a fama representa o nível de reconhecimento de um ativo distintivo pelo público, a singularidade corresponde ao grau em que esse elemento é associado exclusivamente àquela marca. Quando um ativo apresenta altos níveis nessas duas dimensões, ela se fortalece na memória do consumidor.
Lando Norris demonstra que branding pessoal não significa apenas criar uma estética atraente ou desenvolver um logotipo, trata de construir uma percepção clara, coerente e autêntica ao longo do tempo,sua identidade visual, seu comportamento e sua forma de se comunicar contam a mesma história, fazendo com que sua marca seja reconhecida instantaneamente.
Em um esporte onde todos buscam ser os mais rápidos, Norris mostra que também existe uma corrida pela lembrança do público. E, nessa disputa, quem constrói uma marca consistente conquista algo que vai além das vitórias: relevância, conexão e um espaço permanente na memória das pessoas.
Giulia Gandolfi
Estudante de cinema pelo Centro Universitário Belas Artes e técnica em audiovisual pelo Colégio FCEAP. Estuda sobre jornalismo esportivo, visando mostrar que o Branding está desde as arquibancadas à estratégia de posicionamento.