Você está em processo de descoberta?
No meu processo de (auto)descoberta esbarrei na plataforma VOZ Unfold, uma iniciativa da VOZ Colab®, que sintoniza com minha vontade de fazer parte de uma comunidade de criativos e estrategistas que buscam clareza e profundidade no branding enquanto gestão de sentido. Coerente com o cenário, Melissa Resch, no caderno “O desaparecimento da descoberta”, constata: “nunca tivemos tanto acesso à informação e tão pouca capacidade de descobrir, de buscar insumos para construir uma perspectiva própria, única”. E foi, então, que essa provocação deu origem à construção deste artigo.
Como Especialista de Marca que tem um olhar poietikos, do grego, “capaz de fazer”, com sensibilidade e emoção para a realidade, busco significado para coisas e acontecimentos. E acredito que contra fatos, sempre há uma boa história a ser contada. Aliás, esse traço de personalidade se difunde na minha skin profissional de gestora de projetos, que faz projeções e cenários de riscos, sejam eles de oportunidade ou de ameaça para o escopo que está em jogo. São possíveis perspectivas, que pairam na atmosfera das hipóteses e podem se concretizar em uma narrativa. Afinal, a timeline não pode parar.
Me observando um pouco mais, notei que o viés inspiracional transforma meu campo de visão em um movimento de constante criação. O encadeamento de pensamentos passa naturalmente pela fase investigativa do que veio primeiro à mente ao contemplar um recorte banal que está ali, na minha frente, esperando por sua significância após sussurrar que tem algo além. Sigo com a intuição de me contextualizar e compreender a fase da vida pela qual estou passando: quais narrativas venho carregando? Me surpreendo ao mergulhar nas interpretações! Sem moldes, transformo achados em direcionais de sentido. E então, traduzo tudo isso em voz, com meus textos, imagem, por fotos aleatoriamente guardadas, e identidade, que, intencionalmente, reforça minha imagem pessoal. Veja só se não é o processo que usamos (ou deveríamos) na construção de estratégia de marca.
Neste exato momento, te coloco dentro de um diálogo interno que tive durante a semana. Quando preciso de foco e momentos de imersão, escolho acordar ainda de madrugada para escutar o absoluto silêncio e, com toda certeza, aguardar os passarinhos que, em uma entropia de sons, sinalizam os primeiros raios de sol. My precious hour. Fique com a referência do Senhor dos Anéis ou da música que leva exatamente o nome, do ProleteR, ou alguma outra; o repertório é seu.
Em atenção plena, sem demandas externas, a produção fluiu tanto que decidi não treinar. A serotonina estava em dia pela sensação de realização, que iluminava um horizonte de novas possibilidades, sem muitos detalhes revelados ainda. Foi sair de casa para eu me ver sem respiro de agenda, equilibrando tempos e movimentos.
Entrei no Uber e senti o gatilho ao olhar para o painel de chaveiros do banco do passageiro, no frenesi do horário do almoço. Também registrei, mas o preto e branco me soou mais apropriado e dramático. E, no flow do primeiro registro, criei uma narrativa para aquele dia que representa meu agora inconformista: a rotina suga a cor, mas continuo em movimento.

Registros pessoais
Olhei para os meus pés e eles apontavam para frente, rumo ao próximo destino, adiante. E nesse cenário meio sem vida, aparecem as escolhas, penduradas na minha frente, quase como um lembrete de que mesmo quando tudo parece automático, ainda existe decisão.
Na minha narrativa, o carro surge como símbolo de deslocamento da vida adulta e, no meio disso, pequenas possibilidades, quase invisíveis no dia a dia. O pulso das miudezas na rota da nossa verdade. Apesar de me sentir em um mundo paralelo na aula de Semiótica na faculdade, ouso dizer que peguei o jeito da coisa.
Toda essa história pra falar: desenvolva uma mentalidade de ensejos. No livro Originals: How Non-Conformists Move the World, Adam Grant contrasta o conceito tradicional de “déjà-vu”, a sensação de já ter visto algo antes, com “vuja-de”, um neologismo que ele usa para descrever a capacidade de olhar algo familiar com olhos novos. No detalhe, o “vuja-de” é um gatilho para a inovação; quando você olha uma situação comum, um produto existente, um processo padrão, uma estratégia usual, mas a vê de modo diferente e abre espaço para soluções originais. Já o “déjà-vu” encoraja o conformismo. Grant sugere que o verdadeiro salto criativo está em praticar o “vuja-de”: permitir-se desafiar o conhecido, reimaginar o que parece estabelecido, desconstruir suposições; enxergar velhos problemas com novos caminhos.
No universo das marcas, enquanto sistemas vivos de significado, muitas vezes, o diferencial está menos em inventar algo do zero do que em ressignificar algo existente por um ângulo alternativo: o da descoberta. E no seu universo? Qual realidade você des-cobriu, no sentido poético, recentemente, tirando o véu do automático e do padrão? Expanda sua visão para ver até onde pode continuar indo.
Esteja aberto aos sinais e banque a unique selling proposition (proposta única de valor) da sua marca e também sua autenticidade pessoal. A magia está nos detalhes.
PS: escrevi esse artigo na estrada, com trocas de olhar com o horizonte. Minimamente curioso.

Beatriz Ré Magro: Publicitária formada pela ESPM e especialista em Comunicação e Marketing Digital com foco em Branding pela Belas Artes, conecta marcas a pessoas há mais de 10 anos. Atuou em marketing 360° em empresas como Globo e Editora Santillana, foi Atendimento Publicitário de Ipiranga Postos pela agência Markcom e Gestora de Projetos de Marketing e Comunicação na ACIPI. Hoje é Especialista de Marca no grupo Cataguá Soluções Imobiliárias e também atua como consultora de Estratégia & Expressão para autônomos e negócios locais. Atleta amadora de endurance e maratonista, busca inspiração na criatividade, no comportamento humano e em projetos com propósito.