Porque calibrar o olhar pode ser o seu grande diferencial
“O que você acha que faz a sua criatividade aflorar?” Recebi essa pergunta e ela ficou na minha cabeça. Precisava virar texto.
Minha resposta soa simples: sou curiosa. E, como curiosa nata, meu primeiro mergulho do ano foi na Ayurveda, a partir do livro Os 4 Pilares da Saúde, de Matheus Macedo, que me fez repensar hábitos. Ali, a ciência da vida é apresentada como nossa capacidade individual de adaptação. Mudanças reais não vêm de gestos grandiosos, mas de movimentos complexos, entendidos pela somatória de movimentos sutis e quase sempre desconfortáveis por fugirem do costume.
Minha proposta aqui é uma perspectiva sugestiva de como aprimorar seu repertório de referências para construir uma assinatura própria, independentemente da área em que você atue. Porque o que você faz, qualquer um pode fazer; como você faz, não.
Hoje, te convido a ficar desconfortável. E espero que, ao final da leitura, você reflita sobre pequenas iniciativas que poderiam ser experimentadas. Ative sua mentalidade de shoshin, vista a faixa branca e permita-se ser iniciante.
Se o branding é sobre geração de valor por meio de conexões emocionais e significados, opto por falar de uma camada de fundação: criatividade como disciplina simbólica. Antes de gerir marcas, precisamos aprender a enxergar o mundo.
Começo aqui minha proposta irrecusável:
Ser sincero com você
Qual é a sua maior dor hoje? E qual realidade você deseja? Agora pense no caminho entre esses dois pontos. Muita coisa pode acontecer ali e quase nunca do jeito que imaginamos.
Aquilo que você repete diariamente ainda faz sentido? Tomar café todo dia deixou de fazer sentido para mim quando testei ficar sem por duas semanas. Meu sono melhorou, minha ansiedade diminuiu e virei amante do chá. Assim como as notificações. Já faz dois anos que o WhatsApp está no mute.
E, em um contexto mais amplo, nem sempre evoluir significa ir para frente de cara. Às vezes, é preciso fazer movimentos laterais: observar ameaças, identificar oportunidades, revisar forças e fragilidades. A velha matriz SWOT segue viva. Inclusive, Arthur Bender, em Personal Branding, fala da autoanálise como estratégia de vida.
Eu, por exemplo, pausei leituras teóricas de Marketing e Branding. Voltei meu olhar para outros temas e resgatei meu lado inventivo. Passei a escrever crônicas e sigo feliz com meus cinco leitores no Substack.
Passar da superfície
Quando você viaja, se limita aos pontos turísticos ou busca viver a cultura local?
Quando estuda, lê o resumo ou mergulha na obra original?
Diante de uma obra de arte, você faz o exercício de contemplação e busca entender o que aquele universo simbólico visual te desperta? Não é por nada, mas a natureza dá um show à parte e eu amo identificar padrões inusitados e dinâmicas não performáticas. Meu feed guarda diversos registros e leituras desses momentos.
Até no uso do ChatGPT isso se aplica: você aceita a primeira resposta ou aprende a perguntar melhor? Sugiro um passinho extra! Quando chegar a resposta, aplique em outra situação. Às vezes, uma palavra vira insight para uma futura produção, como aconteceu com o título deste texto.
Buscar alternativas
Se não esse caminho, por que não aquele?
Na minha última viagem, me comuniquei em inglês, português, espanhol, portunhol e mímicas. Adaptar-se foi mais prazeroso do que recorrer ao tradutor. Criatividade também é isso: presença ativa no contexto.
Se uma tarefa não foi feita de manhã, ela perde valor à noite? Muitas ideias deste texto surgiram enquanto eu cozinhava depois do trabalho. Meu antigo lado metódico, que diria que sentar por algumas horas pré-definidas pela manhã seria a única forma de produzir algo de qualidade, aprendeu a se adaptar.
Já tentou explicar algo para uma criança? É um treino poderoso. O cérebro precisa abandonar jargões e se despir de expertise. Isso revela o quão ensinável e vulnerável você é fora do seu território de domínio. Eu já disse para uma menina que meu trabalho ajudava a Barbie a ser conhecida (trabalho com Marketing, ok?).
Para fechar
Byung-Chul Han, em No Enxame, propõe que vivemos como um coletivo de indivíduos isolados. Reagimos, curtimos, comentamos, mas sem direção comum. Tudo é estímulo, pouco é elaboração. E a criatividade, diferentemente do que vendem por aí, precisa de silêncio, tempo e solidão.
Aos poucos, algo muda. O repertório se expande, a percepção se refina e novas conexões surgem. Não sei dizer quando e não existe um único como investigativo. Criatividade é meio alérgica a cronogramas.
Gosto muito das reflexões do Tiago, autor da newsletter Tira do Papel, e trago um recorte cirúrgico para essa discussão: tudo o que você não gosta pode ensinar tanto sobre você quanto aquilo que você gosta.
Por isso, quando tudo ficar confortável demais, recomece. Esse pode ser um marco na construção do seu diferencial.
PS: para deixar minha criança feliz, interpreto que a palavra criatividade se traduz, nada mais, nada menos, como a atividade de criar a vida.

Beatriz Ré Magro: Publicitária formada pela ESPM e especialista em Comunicação e Marketing Digital com foco em Branding pela Belas Artes, conecta marcas a pessoas há mais de 10 anos. Atuou em marketing 360° em empresas como Globo e Editora Santillana, foi Atendimento Publicitário de Ipiranga Postos pela agência Markcom e Gestora de Projetos de Marketing e Comunicação na ACIPI. Hoje é Especialista de Marca no grupo Cataguá Soluções Imobiliárias e também atua como consultora de Estratégia & Expressão para autônomos e negócios locais. Atleta amadora de endurance e maratonista, busca inspiração na criatividade, no comportamento humano e em projetos com propósito.