Prefiro ser essa metamorfose ambulante

Buscando conteúdo para o pontapé do ano, resgatei memórias da Bia que estava começando no mercado de trabalho há onze anos. Cá estou eu sentindo o mesmo frio na barriga daquela jovem aventureira recém-chegada em São Paulo. Nas fases das entrevistas, havia uma pergunta que sempre me soou ilusória e só tive mais certeza disso com o passar do tempo: “Como você se vê daqui a cinco e dez anos?”.

Em 2014, eu respondia: tendo uma carreira de sucesso, construindo família, com dois filhos, casa e carro próprio. Se você me conhece minimamente ou leu meus últimos artigos, é difícil acreditar que eu já vesti essa personagem. Em 2025, parei para pensar que não faço ideia do que vai acontecer nos próximos cinco ou dez anos. Não por falta de projeção, mas por abundância de intenção no agora. Apesar da minha primeira tatuagem, attraversiamo, do italiano “siga em frente”, deixar claro que não há tempo para olhar para trás (fiz nas costas, que eu nem enxergo), precisei voltar no tempo para entender o que estou vivendo agora e rir um pouco daquela resposta.

Eu acredito muito em sonhos, mas seria injusta com a vida não reconhecer que meus anos foram evidências melhores do que eu poderia ter desenhado em mente. Fui morar sozinha, trabalhei na Globo por quatro anos, fiz implante e sete anos depois explante de prótese de mama, tirei CNH de primeira (e eu não dirijo), me especializei no digital, pedi demissão para voltar ao interior, trabalhei em agência e abri meu CNPJ, me descobri atleta amadora (e suas boas lesões), recebi proposta para trabalhar no Rio de Janeiro (e neguei), me tornei tia e dinda Bibi, quase comprei um apartamento na semana em que um contrato se encerrou, comecei a trabalhar com empreendedorismo local e gostei tanto que virei consultora, reduzi meu salário por acreditar no propósito de uma fase, desisti de comprar um carro quando entendi que queria viajar mais, cheguei no branding, fiz duas maratonas (e rendeu até classificação geral), soltei cada vez mais minhas camadas na psicóloga e vivi eventuais narrativas amorosas. No fundo, eu amo o hino dos meus divertidamentes: “não sei como eu vou conseguir, só sei que já aconteceu”. 

Então, resolvi rasgar o script que já estava bem rabiscado. Maluca, provavelmente. Como diria Rosa Montero, na obra O perigo de estar lúcida: “vendem para nós a ideia de que a normalidade é sinônimo do mais habitual, do mais comum, mas isso é mentira. Na verdade, a normalidade é uma construção cultural, uma construção social”. Ao longo do tempo, me despedi de muitas Bias. As saudades delas existem, mas me sinto preenchida pelo caos de preferir ser essa metamorfose ambulante; Raul Seixas foi impecável em sua dor. Já não me conecto a velhas opiniões e sigo mudando os contextos, porque talvez o oposto do que eu disse antes agora seja protagonista. Ainda com Montero: “a vida é uma constante reescrita do passado” e “morrer faz parte da vida”.

Como nada acontece de forma isolada, isso também respinga no profissional. Uma das coisas em que me interesso é a construção do branding pessoal. Esquece o guia de regras infalíveis; nem crie essa expectativa comigo. Talvez meu estado de bem-aventurança te inspire a reformular esse conceito. Vejo minha carreira como jornada de vida e não a conecto unicamente a empresas ou remuneração. A carreira, para mim, é um conjunto de escolhas para se tornar indivíduo socialmente ativo e assumir posicionamentos. Nosso capital simbólico vende estilo de vida, presença e pertencimento cultural; ultrapassa escopos, hierarquias e lucro. Parta do princípio do autodesenvolvimento a ponto de suas métricas de realização serem tão mutáveis e surpreendentes quanto o tempo. Costuma ser mais palatável no universo pessoal, mas o eixo contexto-coerência se mantém no institucional.

A lógica quase não muda quando olhamos para marcas. Nesse campo, uma polarização política pode gerar interpretações divergentes de intenção e terminar em cancelamento. A campanha de essência humorística da Havaianas foi como uma tira de chinelo que se solta: irritante para o consumidor, que por mais que saiba que isso possa acontecer, não espera a audácia de um ícone nacional. Para muitos especialistas, foi “loucura”. A marca é a mesma e o consumidor brasileiro também; e, ao mesmo tempo, não são. A construção de discurso acontece em território sensível, e as necessidades emocionais estão mais intensas. O marketeiro anseia por seus dias de paz.

Outro belo exemplo é acreditar que quase todo texto agora é construído por IA por identificar certos vícios de escrita, visto que a própria IA tem sua linguagem lapidada por humanos; então sim, ela vai parecer cada vez mais com a gente. Se você escreve com travessões, continue com a sua paz; os críticos que permaneçam na crítica. Fico imaginando o que Montero diria sobre essas chineladas do segundo tempo de 2025; no mínimo, que “todos guardamos no fundo do nosso coração alguma divergência” e que existe, sim, “uma relação entre criatividade e certa extravagância”.

Como anoto tudo que me parece ser insight, trago duas falas de amigas para essa roda. A primeira foi em um dia em que eu me sentia a própria mosca do coco do cavalo do bandido, mas o universo já calibrava os receptores da intuição: “pensei em você porque preciso de alguém intencional do meu lado, com visão do todo”. Por vezes me sentir inadequada ao que é normalizado no coletivo (ou lúcida?), tenho dificuldade de me conectar com certos ambientes e grupos, e escutar aquilo foi um abraço. Sou mais observadora do que engajada por convenção, mas minha contribuição é intencional e atemporal. Os movimentos que faço não são em vão; minha natureza não permite forçar essa barra. Justificativa boa para meu crescente interesse por gestão de projetos, governando tempos, movimentos e conexões, com pitadas de originalidade, mais do que por ativações de marca.

Em outro dia, uma querida que mora há dez anos na Holanda falou sobre romper barreiras. Depois de nos atualizarmos sobre os últimos cinco anos, escuto que “a gente precisa tomar cuidado com essa vontade de realizar nossos sonhos, porque depois nunca mais sentimos pertencer”. Essa provocação foi um alívio. Nossa bagagem não tem prazo de validade, mas tem peso. Tudo o que fomos ainda existe em nós, como bússola para seguir no mesmo ritmo ou como referência para não voltar onde não cabemos mais. Vai chegar a hora de soltar. O filme Divergente, com a personagem Beatrice (veja bem), também materializa isso: em uma sociedade organizada por grupos de interesses e condutas similares, ela não se sente parte de nenhuma definição, mas com potencial para seguir em experimentação sem a certeza de quem é. O que serei em 2026?

Como marcas e pessoas atravessam o tempo pode ser a questão-chave. Não existe manual da existência, linearidade e roteiro pronto. Existe coragem de se permitir ser outro. E não há problema algum nisso. Aliás, é exatamente aí que mora a potência de uma marca, pessoal ou corporativa, realmente notável: na reinvenção, na loucura e no desconforto de ser diferente. Feliz novo!


Beatriz Ré Magro: Publicitária formada pela ESPM e especialista em Comunicação e Marketing Digital com foco em Branding pela Belas Artes, conecta marcas a pessoas há mais de 10 anos. Atuou em marketing 360° em empresas como Globo e Editora Santillana, foi Atendimento Publicitário de Ipiranga Postos pela agência Markcom e Gestora de Projetos de Marketing e Comunicação na ACIPI. Hoje é Especialista de Marca no grupo Cataguá Soluções Imobiliárias e também atua como consultora de Estratégia & Expressão para autônomos e negócios locais. Atleta amadora de endurance e maratonista, busca inspiração na criatividade, no comportamento humano e em projetos com propósito.

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